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Quando era muito pequeno, os meus pais levaram-me a S. Miguel de avião, para ver os lagos. Dos lagos lembro-me pouco, mas recordo perfeitamente uma das noites: aproveitámos a estadia para assistir a um concerto de música clássica, instrumentos de cordas, a propósito de quê já não sei. Os meus pais não podem ser propriamente considerados melómanos, mas apreciavam ir a um concerto de quando em quando, para aproveitar o facto de alguém vir às nossas ilhas fazer fosse o que fosse. Nessa altura decidi que queria aprender a tocar um instrumento. Um instrumento de cordas, o maior possível tendo em conta o meu diminuto tamanho de criança. Insisti nisso durante todo o resto das férias. Quando regressámos à Terceira, os meus pais arranjaram-me um professor e um violoncelo, encomendado do continente. A partir daí, nunca mais parei de tocar.

O meu professor, as pessoas da escola de música, os meus amigos, todos me consideravam um talento, um jovem promissor no respeitante ao manejo do instrumento musical. Eu vivia para tocar e não fazia muito mais. Os outros jovens da minha idade começavam a interessar-se por namoradas e por beber vinho nas ruelas escondidas, mas eu ficava em casa, tocando, tocando, tocando sem parar no meu violoncelo. Era o que me dava mais prazer na vida e todos diziam que eu devia ir para o continente. Portanto, a primeira coisa que fiz quando celebrei os dezoito anos foi tirar a carta de condução. Seria mais útil andar de carro no continente. Chegaria depressa a todo o país e poderia mostrar os meus talentos em todo o lado. Estava convencido de que iria ter muito sucesso como violoncelista, não só no meu país como também na Europa, talvez até no resto do mundo se tudo corresse bem. E a verdade é que tudo corria bem. Estava apenas à espera de terminar o ensino obrigatório para me inscrever na escola superior de música no Porto. Infelizmente, devido a tantos ensaios e tanta dedicação ao violoncelo, tinha chumbado dois anos, no sexto e no oitavo. Estava atrasado. Mas não havia problema, era mais tempo que tinha para me aperfeiçoar no mundo da música antes de ir ter com os meus pares. Tinha muitas expectativas. Na ilha, ninguém me podia igualar, nunca encontraria ninguém suficientemente talentoso para fazer um trio, não havia uma orquestra na qual me pudesse introduzir. Estava ansioso.

Infelizmente, as coisas não correram muito bem. A minha mãe foi trabalhar para o Faial e brevemente seguimos atrás dela, eu, o meu pai e o violoncelo. Não podia haver nada mais deprimente. Uma ilha minúscula, sem nada que fazer, onde a única animação era observar os marinheiros no Peter’s. Não havia professor de violoncelo, não havia ninguém com quem falar de música. Nos primeiros tempos só me mantinha à tona da água porque podia tocar. Mas os nossos vizinhos começaram a implicar com isto, dizendo que não conseguiam dormir, que não conseguiam descansar, que não conseguiam ver o Preço Certo sossegados. Não podia tocar. Tinha perdido tudo.

O meu pai compadeceu-se de mim. Ofereceu-me um pequeno carro e disse-me que fosse passear pela ilha. Era uma ilha bonita e muito diferente da Terceira. Não era obrigatório ficar confinado à Horta. A partir desse momento, comecei a passear com o meu violoncelo e a tocar nos sítios mais improváveis e recônditos da ilha. Ninguém me podia incomodar. Se bem que eu sabia que o som do instrumento se ouvia a muita distância. Tinha esperança de alegrar o dia a algum daqueles pastores de vacas.

Na Horta, o meus sítio preferido para tocar era no porto, junto de todos aqueles desenhos coloridos que, para mim, não faziam qualquer sentido. Nesse dia, tocava uma sonata um pouco mais simples, alegre dentro dos possíveis, só para exercitar os dedos. Sentia o som a penetrar dentro da água do mar, que batia calmamente contra o pontão, pensando em como o mar também se devia sentir sozinho. Então, comecei a vê-la. Lá ao fundo. Uma rapariga saía de dentro do mar. Estreitei os olhos para a ver com atenção, mas não deixei de tocar. Conhecia tão bem a peça que ela fluía automaticamente. A rapariga tinha os cabelos azuis, colados à cabeça, roupas azuis, coladas ao corpo, toda ela estava completamente encharcada. Afinal, estava a sair de dentro de água… Mas era uma visão estranha. Os seus olhos eram enormes e pretos, viam-se à distância, e pareciam estar fixos em mim. Ela avançou e eu não deixei de tocar. Sentou-se ao meu lado e eu não deixei de tocar. Olhava para mim sorrindo. Então a peça terminou. Disse-me “vim ouvir melhor”.

A partir daí começou aquilo a que poderia chamar uma amizade estranha. Sempre que tinha tempo, ia para o porto e começava  a tocar. Eram sempre peças diferentes e a rapariga aparecia sempre. Sempre encharcada, apesar de nem sempre aparecer no mesmo sítio. Sentava-se ao meu lado a sorrir e depois ia-se embora, não sei para onde. Eu queria saber mais sobre ela, perguntar-lhe coisas, mas ela quase nunca falava. Quando falava era sobre aspectos da vida natural, como estar quase a chover, ou estar quase a ficar sol. Ela adivinhava as marés e sabia quando as nuvens iam dar lugar a um arco-íris. Era estranho, mas eu sentia-me feliz pela primeira vez naquela ilha. Tinha alguém que parecia gostar genuinamente de me ouvir a tocar o violoncelo, apesar de não falarmos muito.

Uma tarde, nublada como sempre, sugeri-lhe mudar de sítio. Ela perguntou como e eu disse-lhe que íamos de carro. Ela parecia nunca ter visto um carro, mas não estava assustada. Foi nessa altura que começaram os nossos passeios. Navegávamos por toda a ilha, parando nos sítios mais improváveis. Lá, ela sentava-se ao meu lado e eu tocava. Uma hora, duas… O tempo parecia não passar. O som parecia atravessar a ilha até chegar ao outro lado, ao mar. Dos pontos mais altos víamos as paisagens verdejantes, salpicadas de vacas, sentindo a humidade a entranhar-se nos nossos ossos. Ela gostava de Porto Pim, dizia que se via bem o horizonte. Eu gostava da Caldeira. Era raro estar lá alguém e o nevoeiro era sempre tão cerrado que tinha dificuldade em ver os seus olhos negros. Mas o som parecia reflectir-se nas gotas de água, entrando na caldeira e voltando para cima, tocando nas plantas luxuriosas e pingando, como uma espécie de chuva.

Pela primeira vez naquela ilha sentia-me feliz. Não sabia o nome dela, ela não me dizia. Então também nunca lhe disse o meu. Mas parecia que não era importante saber este tipo de coisa. Era importante tocar o violoncelo e ouvi-lo. Nada mais.

Todos os dias eu esperava por ela. Mas, uma tarde, ela não ficou. Disse “tenho de ir voar sobre as ondas do mar” e sorriu. Era um sorriso triste. Qualquer que fosse o sentido daquela frase, significava que não nos íamos ver mais. Depois, foi-se. Desta vez, vi-a mergulhar a pés juntos dentro de água. Ela estava sempre molhada, mais ou menos como a própria ilha. Nesse momento percebi que a rapariga, a minha amiga, poderia ser mais do que uma simples pessoa estranha.

Em desespero, pensei no que poderia fazer. Como ir para o mar? Precisava de ir à procura dela, a resposta estava no mar! Não conhecia ninguém com barco, não imaginava a forma de lá ir. Até que, por acaso, vi um prospecto sobre as embarcações de observação de baleias na ilha do Pico. No dia seguinte faltei às aulas. O que interessava chumbar mais um ano? Aquela amizade era o mais importante para mim! Pus o carro dentro da lancha e sentei-me a olhar para a ilha do Pico, essa massa rochosa sem sentido, enquanto esperava que a travessia terminasse. Lá chegado, fui a toda a velocidade até às Lajes.

Ainda assim, tive de esperar uma hora e meia pela próxima partida dos barcos de observação. Vi atentamente todas as lojas de recordações, com os seus objectos em osso de vaca, imitando marfim de baleia. Aproveitei para ir ao museu, onde estavam mesmo os restos mortais de tantos animais. Depois, chegou finalmente a hora. Equipei-me com o colete salva-vidas e mantive-me na borda do pequeno barco, à espera de algum tipo de revelação.

A probabilidade de observar baleias nesse dia dizia-se ser alta. As outras pessoas, turistas do continente na sua maioria, pareciam muito excitadas, de máquina fotográfica em punho. Então, mesmo à nossa frente, sentimos uma enorme massa de água a mover-se. Era uma baleia, enorme, cinzenta, com a sua grande boca prognata cheia de barbas, as suas barbatanas, a sua pele sedosa. E os seus olhos. Eu conhecia aqueles olhos. Enormes. Negros. Quase sem fundo. A baleia voltou a mergulhar. Podíamos ouvir os cantos, esses misteriosos sons guturais, chamamentos, canções de amor.

E eu podia ouvir claramente a frase, repetida, vezes sem fim: “estou a voar sobre as ondas do mar”
Disseram uma vez uma coisa na Antena 2 que me inspirou. Depois fui aos Açores e foi melhor.

Não ficou exactamente como queria, escrevi-a num sítio sem internet e aí se vê a nossa dependência. Mas ok.
:iconxxanathewolfxx:
XxAnaTheWolfxX Featured By Owner Jun 29, 2015  Hobbyist Digital Artist
Adorei :love:, mas, só uma pergunta, como consegues escrever assim tão bem?
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:iconladylouve:
LadyLouve Featured By Owner Jun 30, 2015  Hobbyist Writer
Haha, obrigada :) Não é assim tão bem :>
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Submitted on
June 24, 2015
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