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Anoitece e os grilos comunicam por pequenos estalidos. Ainda estou escondida. Os estábulos são quentes, tanto calor vindo de corpos equinos, suas palhas, suas fezes. O cheiro é intenso, mas não é mau. Cavalos não cheiram mal, cheiram a feno, é a isso que cheira aqui. Mas não me posso deixar sentir confortável, não posso adormecer no meio dos fardos de palha: ele anda por aí, ele ainda anda por aí.

O assassino já matou seis estudantes de equitação, dentro deste estábulo, cada um junto a um cavalo. Os cavalos estão assustados, todos estamos assustados, mas tentamos manter a calma. Eu tento manter a calma. A próxima sou eu, sei disso, sinto isso. E ele anda por aí, ninguém sabe como ele é, a única coisa que sabemos é que a sua arma é uma faca, uma faca muito grande e muito afiada com que ele degola as suas vítimas. Não sei como poderei escapar. Preciso de sair do meu esconderijo. Os cavalos sabem onde eu estou. Ele sabe onde eu estou. Levanto-me subitamente, vou sair daqui como se nada se estivesse a passar, fazendo o máximo de barulho possível, vou chamar a atenção e o melhor que pode acontecer é que alguém me venha ajudar. Nervosamente, caminho, quase corro, as solas das botas de montar calcando pedacinhos de palha no chão de cimento. A saída. Vou conseguir.

Mas tenho de parar. À minha frente está aquele rapaz, uma pessoa que já tinha perdido nas memórias do passado. É muito baixo e entroncado, impede-me a passagem pela porta.

“Então, por aqui? Há quanto tempo não nos víamos!”

“Pois é, a última vez que ouvi falar de vocês foi quando a filha do professor perdeu o cão!”

Sinto-me salva, uma conversa normal, uma conversa normal e depois poderei sair do estábulo e fugir para a floresta. Sorrio, desvio o olhar. Então vejo a sua mão, escondida atrás das costas. Tem uma faca. Uma faca muito grande e muito afiada. É ele. É ele o assassino.

Empurro-o, com a surpresa ele não tem reacção, consigo escapar-me, fujo, correndo, correndo, as botas não me dão muita mobilidade nos tornozelos, mas é o melhor que consigo, fujo de olhos fechados, sei que a floresta está mesmo ali, na floresta estarei a salvo, estarei sim, estarei.

Quando abro os olhos, descubro que tomei o caminho errado. Estou na estação de metro. O chão é de mosaicos brancos, muito limpos, muito brilhantes, iluminados por fortes luzes que os fazem cintilar. As minhas botas fazem um ruído seco quando piso este chão.

Chega o metro. Duas carruagens unidas, amarelas e aerodinâmicas. Não há muito mais opções para além de entrar. Lá dentro, estão os meus colegas da escola. Já não os via há anos. Estão exactamente iguais, conversando sentados, um ou outro fazendo macacadas com as traves onde deviam segurar-se para se equilibrarem. Fico em pé, eles agem como se eu sempre estivesse ali. Saio atrás deles. Por coincidência é a estação onde eu deveria sair para ir a uma entrevista de trabalho. Por coincidência, eles também vão ao mesmo lugar.

É uma clínica pequena, aparenta ter apenas uma sala de espera e uma outra sala, separadas por uma cortina branca. Todos se sentam no chão menos eu. Tenho de me manter apresentável, para me contratarem. Duas raparigas, as melhores amigas, usam roupas estranhas. Têm um fato de corpo inteiro às listras amarelas e pretas, como aqueles antigos fatos de arlequim que se compravam em lojas de carnaval. Têm a cabeça coberta por um capuz, que também lhes cobre a face. Vêem e respiram por uma pequena rede, mas não conseguimos ver a cara delas. Uma das melhores amigas tira o capuz, parece jovial e feliz como sempre foi. Mas a outra pega na sua irmã pela mão e coloca-se num ponto mais elevado. Aí, inicia um discurso de ódio. Diz todas as coisas que sempre detestou na sua irmã mais velha, todas as coisas que sempre a magoaram, até mesmo coisas que sabemos que não são verdades. A irmã chora, pergunta porquê, porque é que ela lhe está a dizer todas estas coisas.

“Tenho de aproveitar que tenho o fato posto para dizer todas as verdades!”

A outra melhor amiga coloca o capuz e começa a dirigir-se para mim. Não! Não! Deixa-me! Eu não te quero ouvir! Afasto-me para perto da cortina branca, tenho de impedir que ela se aproxime, mas tenho de manter a compostura, a entrevista de trabalho é decisiva para o meu futuro.

Então aparecem dois estagiários, vestidos de vermelho, com uma maca. Estacionam-na à minha frente, bloqueando as rodas com os pés. Levantam o lenço. Por baixo dele está uma criança recém-nascida. É castanha, parece enlameada, ensanguentada, um pavor. O seu cordão umbilical está seco e retorcido e prolonga-se longamente. Está preso à testa de uma criatura que segue atrás da maca, um manequim de montra sem braços, com a cabeça encaixada sobre um pescoço demasiado fino e demasiado longo. Ela não tem roupas e tem ferimentos diversos, mas o seu corpo não é de carne, não é humano, não passa de um boneco. Grito, tenho medo, tenho tanto medo, deixem-me, deixam-me, não me digam as verdades, não digam!

Puxo o cordão umbilical, tenho de destruir estes bonecos. Mas quando o faço, o ventre da criança castanha desfaz-se em sangue e pus. Os meus gritos são abafados pelos risos dos outros. Afinal, não eram bonecos.
"Cordão Umbilical"

Tenho estado muito ocupada com trabalho. Tenho tido muitos pesadelos.
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August 16, 2015
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