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Quando era muito pequeno, os meus pais levaram-me a S. Miguel de avião, para ver os lagos. Dos lagos lembro-me pouco, mas recordo perfeitamente uma das noites: aproveitámos a estadia para assistir a um concerto de música clássica, instrumentos de cordas, a propósito de quê já não sei. Os meus pais não podem ser propriamente considerados melómanos, mas apreciavam ir a um concerto de quando em quando, para aproveitar o facto de alguém vir às nossas ilhas fazer fosse o que fosse. Nessa altura decidi que queria aprender a tocar um instrumento. Um instrumento de cordas, o maior possível tendo em conta o meu diminuto tamanho de criança. Insisti nisso durante todo o resto das férias. Quando regressámos à Terceira, os meus pais arranjaram-me um professor e um violoncelo, encomendado do continente. A partir daí, nunca mais parei de tocar.

O meu professor, as pessoas da escola de música, os meus amigos, todos me consideravam um talento, um jovem promissor no respeitante ao manejo do instrumento musical. Eu vivia para tocar e não fazia muito mais. Os outros jovens da minha idade começavam a interessar-se por namoradas e por beber vinho nas ruelas escondidas, mas eu ficava em casa, tocando, tocando, tocando sem parar no meu violoncelo. Era o que me dava mais prazer na vida e todos diziam que eu devia ir para o continente. Portanto, a primeira coisa que fiz quando celebrei os dezoito anos foi tirar a carta de condução. Seria mais útil andar de carro no continente. Chegaria depressa a todo o país e poderia mostrar os meus talentos em todo o lado. Estava convencido de que iria ter muito sucesso como violoncelista, não só no meu país como também na Europa, talvez até no resto do mundo se tudo corresse bem. E a verdade é que tudo corria bem. Estava apenas à espera de terminar o ensino obrigatório para me inscrever na escola superior de música no Porto. Infelizmente, devido a tantos ensaios e tanta dedicação ao violoncelo, tinha chumbado dois anos, no sexto e no oitavo. Estava atrasado. Mas não havia problema, era mais tempo que tinha para me aperfeiçoar no mundo da música antes de ir ter com os meus pares. Tinha muitas expectativas. Na ilha, ninguém me podia igualar, nunca encontraria ninguém suficientemente talentoso para fazer um trio, não havia uma orquestra na qual me pudesse introduzir. Estava ansioso.

Infelizmente, as coisas não correram muito bem. A minha mãe foi trabalhar para o Faial e brevemente seguimos atrás dela, eu, o meu pai e o violoncelo. Não podia haver nada mais deprimente. Uma ilha minúscula, sem nada que fazer, onde a única animação era observar os marinheiros no Peter’s. Não havia professor de violoncelo, não havia ninguém com quem falar de música. Nos primeiros tempos só me mantinha à tona da água porque podia tocar. Mas os nossos vizinhos começaram a implicar com isto, dizendo que não conseguiam dormir, que não conseguiam descansar, que não conseguiam ver o Preço Certo sossegados. Não podia tocar. Tinha perdido tudo.

O meu pai compadeceu-se de mim. Ofereceu-me um pequeno carro e disse-me que fosse passear pela ilha. Era uma ilha bonita e muito diferente da Terceira. Não era obrigatório ficar confinado à Horta. A partir desse momento, comecei a passear com o meu violoncelo e a tocar nos sítios mais improváveis e recônditos da ilha. Ninguém me podia incomodar. Se bem que eu sabia que o som do instrumento se ouvia a muita distância. Tinha esperança de alegrar o dia a algum daqueles pastores de vacas.

Na Horta, o meus sítio preferido para tocar era no porto, junto de todos aqueles desenhos coloridos que, para mim, não faziam qualquer sentido. Nesse dia, tocava uma sonata um pouco mais simples, alegre dentro dos possíveis, só para exercitar os dedos. Sentia o som a penetrar dentro da água do mar, que batia calmamente contra o pontão, pensando em como o mar também se devia sentir sozinho. Então, comecei a vê-la. Lá ao fundo. Uma rapariga saía de dentro do mar. Estreitei os olhos para a ver com atenção, mas não deixei de tocar. Conhecia tão bem a peça que ela fluía automaticamente. A rapariga tinha os cabelos azuis, colados à cabeça, roupas azuis, coladas ao corpo, toda ela estava completamente encharcada. Afinal, estava a sair de dentro de água… Mas era uma visão estranha. Os seus olhos eram enormes e pretos, viam-se à distância, e pareciam estar fixos em mim. Ela avançou e eu não deixei de tocar. Sentou-se ao meu lado e eu não deixei de tocar. Olhava para mim sorrindo. Então a peça terminou. Disse-me “vim ouvir melhor”.

A partir daí começou aquilo a que poderia chamar uma amizade estranha. Sempre que tinha tempo, ia para o porto e começava  a tocar. Eram sempre peças diferentes e a rapariga aparecia sempre. Sempre encharcada, apesar de nem sempre aparecer no mesmo sítio. Sentava-se ao meu lado a sorrir e depois ia-se embora, não sei para onde. Eu queria saber mais sobre ela, perguntar-lhe coisas, mas ela quase nunca falava. Quando falava era sobre aspectos da vida natural, como estar quase a chover, ou estar quase a ficar sol. Ela adivinhava as marés e sabia quando as nuvens iam dar lugar a um arco-íris. Era estranho, mas eu sentia-me feliz pela primeira vez naquela ilha. Tinha alguém que parecia gostar genuinamente de me ouvir a tocar o violoncelo, apesar de não falarmos muito.

Uma tarde, nublada como sempre, sugeri-lhe mudar de sítio. Ela perguntou como e eu disse-lhe que íamos de carro. Ela parecia nunca ter visto um carro, mas não estava assustada. Foi nessa altura que começaram os nossos passeios. Navegávamos por toda a ilha, parando nos sítios mais improváveis. Lá, ela sentava-se ao meu lado e eu tocava. Uma hora, duas… O tempo parecia não passar. O som parecia atravessar a ilha até chegar ao outro lado, ao mar. Dos pontos mais altos víamos as paisagens verdejantes, salpicadas de vacas, sentindo a humidade a entranhar-se nos nossos ossos. Ela gostava de Porto Pim, dizia que se via bem o horizonte. Eu gostava da Caldeira. Era raro estar lá alguém e o nevoeiro era sempre tão cerrado que tinha dificuldade em ver os seus olhos negros. Mas o som parecia reflectir-se nas gotas de água, entrando na caldeira e voltando para cima, tocando nas plantas luxuriosas e pingando, como uma espécie de chuva.

Pela primeira vez naquela ilha sentia-me feliz. Não sabia o nome dela, ela não me dizia. Então também nunca lhe disse o meu. Mas parecia que não era importante saber este tipo de coisa. Era importante tocar o violoncelo e ouvi-lo. Nada mais.

Todos os dias eu esperava por ela. Mas, uma tarde, ela não ficou. Disse “tenho de ir voar sobre as ondas do mar” e sorriu. Era um sorriso triste. Qualquer que fosse o sentido daquela frase, significava que não nos íamos ver mais. Depois, foi-se. Desta vez, vi-a mergulhar a pés juntos dentro de água. Ela estava sempre molhada, mais ou menos como a própria ilha. Nesse momento percebi que a rapariga, a minha amiga, poderia ser mais do que uma simples pessoa estranha.

Em desespero, pensei no que poderia fazer. Como ir para o mar? Precisava de ir à procura dela, a resposta estava no mar! Não conhecia ninguém com barco, não imaginava a forma de lá ir. Até que, por acaso, vi um prospecto sobre as embarcações de observação de baleias na ilha do Pico. No dia seguinte faltei às aulas. O que interessava chumbar mais um ano? Aquela amizade era o mais importante para mim! Pus o carro dentro da lancha e sentei-me a olhar para a ilha do Pico, essa massa rochosa sem sentido, enquanto esperava que a travessia terminasse. Lá chegado, fui a toda a velocidade até às Lajes.

Ainda assim, tive de esperar uma hora e meia pela próxima partida dos barcos de observação. Vi atentamente todas as lojas de recordações, com os seus objectos em osso de vaca, imitando marfim de baleia. Aproveitei para ir ao museu, onde estavam mesmo os restos mortais de tantos animais. Depois, chegou finalmente a hora. Equipei-me com o colete salva-vidas e mantive-me na borda do pequeno barco, à espera de algum tipo de revelação.

A probabilidade de observar baleias nesse dia dizia-se ser alta. As outras pessoas, turistas do continente na sua maioria, pareciam muito excitadas, de máquina fotográfica em punho. Então, mesmo à nossa frente, sentimos uma enorme massa de água a mover-se. Era uma baleia, enorme, cinzenta, com a sua grande boca prognata cheia de barbas, as suas barbatanas, a sua pele sedosa. E os seus olhos. Eu conhecia aqueles olhos. Enormes. Negros. Quase sem fundo. A baleia voltou a mergulhar. Podíamos ouvir os cantos, esses misteriosos sons guturais, chamamentos, canções de amor.

E eu podia ouvir claramente a frase, repetida, vezes sem fim: “estou a voar sobre as ondas do mar”
O Violoncelista
Disseram uma vez uma coisa na Antena 2 que me inspirou. Depois fui aos Açores e foi melhor.

Não ficou exactamente como queria, escrevi-a num sítio sem internet e aí se vê a nossa dependência. Mas ok.
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A primeira coisa que vi quando abri os olhos foi a sua face adormecida. A pele morena, a barba mal feita, como se há muito ele trabalhasse sob o duro sol da tarde. Mas eu sabia, ao contrário dele, que aquela era a primeira vez que estávamos a acordar.

Acabava de nascer o sol e estava fresco. Estávamos nus sobre a relva e, quando olhei para o seu corpo, soube então que o amava. Era um sentimento novo, mas era o único. Não procurei perceber porque estávamos ali, quem éramos, que local seria este. A única coisa que interessava era o meu amore por ele, que me fazia sentir tão feliz, tão completa, pronta para vencer qualquer provação desde que estivesse a seu lado. Nunca lho cheguei a dizer, mas comecei a perceber que o sentimento era mútuo à medida que nos fomos habituando a viver ali.

O céu brilhava de azul e podia ouvir água algures. Mas tinha frio, um pequeno frio que se me prendia à pele devagar, como se tivesse acordado coberta de orvalho. Então, ainda antes de o acordar. Procurei algo com que me tapar. Foi aí que vi o moinho e comecei a perceber as coisas que me rodeavam.

A porta do moinho era de metal verde e parecia novinha em folha, acabada de ser colocada ali para nós. Entrei e, além de todos os constituintes habituais de um moinho, vi dois conjuntos de roupas simples sobre uma cama e objectos diversos que nos permitiriam fazer pão ou mesmo uma refeição. Vesti-me, com a percepção de que tudo aquilo era para nós, que algo ou alguém nos tinha posto ali para vivermos juntos numa imensa simplicidade de moer cereal, fazer farinha, fazer pão e depois comê-lo. Eu nem sequer sabia o nome dele.

Acordei-o, mostrei-lhe as roupas e juntos explorámos o que nos rodeava. Estávamos num ponto alto, de onde se via um rio e, do outro lado, uma grande cidade colorida. Atravessavam o rio diversos barcos, de todos os tamanhos. Mas, para baixo, estava uma cancela com uma pequena casota para um porteiro, que não estava lá. Quando a vimos, perdemos a vontade de sair. Aquele era o lugar que nos tinha sido destinado e sabíamos, de alguma forma, que tudo – a nossa vida, o nosso amor – se iria desfazer se algum dia abríssemos a cancela e procurássemos o que quer que houvesse do outro lado.

O moinho estava no topo daquela espécie de colina, rodeado por erva alta e flores de todas as cores. Estava limitado por pedaços de cimento partidos, que nos indicavam o início de um mato cerrado, cheio de arbustos espinhosos, ervas daninhas e, viemos a saber depois, gatos que há muito haviam perdido a sua domesticação. Atrás do moinho encontrámos uma burra, com o pequeno úbere cheio de leite. Não vimos o seu filhote. Quando demos a volta para voltar a entrar encontrámos, à nossa porta, um cão grande, com o pêlo castanho espetado. Tínhamos tudo o que precisávamos para viver, incluindo um animal de trabalho e um de companhia. Então, não desejámos ir embora, sair dali. Tinha estado quente durante o dia, mas à noite voltou a arrefecer. Deitámo-nos. Fizemos amor. Era a primeira vez, mas pareceu-me que já nos conhecíamos de todas as formas e que estar com ele era uma espécie de hábito feliz. Continuava sem saber o nome dele, ou ele o meu, mas decidi que isso não interessava. Que nunca havia de interessar.

Acordávamos sempre com os primeiros raios de sol. Sentia sempre aquele estranho frio, como no primeiro dia. Depois, o dia aquecia. Era verdadeiramente Primavera. Descíamos logo até à cancela, onde invariavelmente encontrávamos sacos de plástico com grão para moer nesse dia, garrafas com água e algum tipo de alimento. Uns dias era peixe seco, em outros carne congelada, por vezes uma lata de cogumelos. Comíamos com o pão que fazíamos e acompanhado com o leite da burra, que não parecia acabar. O nosso cão recebia uma lata com ração especial para ele. A verdade é que nunca recebíamos mantimentos suficientes para mais do que um dia. Estávamos completamente dependentes daquele ser misterioso que nos pusera ali. Por vezes até nos dava roupas novas, quando as nossas ficavam demasiado sujas. Quem quer que fosse podia ver-nos de algum lugar, sabia tudo sobre nós. Mas, como tomava conta de nós, acreditámos que seria uma espécie de entidade do bem, que nos queria ali. Começámos a chamar-lhe “A Pessoa”, por falta de outro nome para lhe dar. Nós, até mesmo a burra e o cão, continuávamos sem nome. Achávamos que não tínhamos o direito de nos nomear a nós próprios. Tinha de ser A Pessoa a fazê-lo.

A partir de certa altura operou-se uma mudança nas nossas vidas. Ouvíamos vozes durante a noite, que gritavam coisas sem sentido ou conversavam sobre assuntos que não compreendíamos, como séries de televisão e jogos de futebol. Ao início tive medo, mas ele acalmou-me. Devia ser A Pessoa. De manhã concluíamos sempre que devia ser verdade, pois apareciam coisas escritas nas superfícies à nossa volta. Nomes, frases. Assim, a burra passou a chamar-se “Paptrícia” e o cão “Catota”, nomes que tinham sido escritos na nossa porta.

Estávamos habituados à nossa vida no moinho. Eu ansiava pelo Verão, pois aquela humidade primaveril da manhã me incomodava e gelava. Falei-lhe disso e ele olhou para a cidade do outro lado do rio. Perguntou-me se me parecia que havia mais barcos. Respondi que não tinha reparado. Ele suspirou e disse que se os barcos não nos dessem a oportunidade de prever as estações só A Pessoa o saberia.

Fiquei com isto na ideia. Nessa noite esperei que ele adormecesse. Decidi que iria falar com A Pessoa, pedir-lhe que fizesse vir o Verão. Lentamente, sem acordar ninguém, sem nem mesmo captar a atenção do Catota, que dormia a nossos pés, fui até à porta. Ouvia as vozes do outro lado. As muitas vozes d’A Pessoa. Falavam animadamente de um filme sobre camiões em chamas. A Pessoa por vezes tinha um sentido de humor estranho. Abri uma nesga da porta. Tinha de ver A Pessoa antes de falar com ela. Já a tinha imaginado tantas vezes e de tantas formas diferentes que não fazia ideia do que encontrar. O que vi, então, pela frincha da porta, foi surpreendente. Fazia um frio impossível, parecia ter acabado de chover. À nossa porta estava um grupo de pessoas falando sobre o tal filme, bebendo de grandes garrafas de cerveja, fumando, rindo. Para além deles, o nosso campo de flores tinha desaparecido, tinha sido substituído pelo alcatrão de um parque de estacionamento. Fechei a porta rapidamente, com a certeza de que tinha visto algo que não era suposto, algo interdito. Algo proibido, expressamente proibido. Deitei-me ao lado dele em silêncio e abracei-o. Mas não consegui dormir, pela primeira vez desde o dia em que abri os olhos.

No dia seguinte o tempo aqueceu muito. Ele disse alegremente que A Pessoa nos devia ter ouvido. Não lhe falei do que fizera. Mas por dentro estava contente, finalmente ia ser Verão e, talvez um dia, estivesse tanto frio como na parte de fora do moinho na noite anterior.

Mas passados três dias voltou a arrefecer e choveu. Foi aí que percebi que seria Primavera para sempre.
Primavera no Moinho
Escrevi esta história na Moçarria, à mão, num bloco de notas do meu pai.

Sabemos que no moinho de Cacilhas há uma espécie de portal. Talvez seja isto o que há do outro lado.
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Acordo de repente, como se um grito estivesse preso na minha traqueia. Por um momento não sei onde estou, mas a luz da lua ilumina o pequeno quarto e começo a reconhecer as pequenas coisas a que já me fui habituando. As portas de papel, o chão de madeira, o pequeno colchão desdobrável forrado em risquinhas em que me deito. Reparo que num dos cantos do quarto estão os demónios. Estes acompanham-me desde a minha chegada a esta casa.

Cheguei aqui há uma semana, ou pouco mais. É a casa dos pais de M., onde ainda vive toda a família: estes, uma avó e cinco irmãs mais novas. Mas a casa é tão grande, espalhada em corredores de madeira, plataformas e jardins interiores, que nunca vi nenhum deles. Apenas M. está comigo e falamos de muitas coisas. Ao início falávamos sobre eles, os demónios. Mas agora já me habituei à sua presença e não se tocou mais no assunto. Eles vivem aqui, com toda a família. Aparentemente sempre estiveram nesta casa, que pertence à família há muitas gerações. Aprenderam a viver todos juntos, eles não fazem muito barulho e a família ignora-os. Mas M. explicou-me que por vezes têm de ser eliminados, quando se portam muito mal. Mas não se parecem importar, como se a sua existência neste plano fosse algo fugidio e, de certa forma, acidental. São todos muito semelhantes, pequenas criaturas cobertas de pêlo negro, que cirandam de um lado para o outro deixando rastros de fumo escuro. São todos diferentes, com pequenas variações na forma do focinho, dos cascos das suas patinhas e nas caudas pontiagudas. Ao início tive medo, mas depois passei a ignorá-los. Dois deles apegaram-se a mim, se é possível que este tipo de criatura tenha qualquer tipo de emoção. Seguem-me para toda a parte, conversando baixinho numa linguagem estranha, sem vogais. Quando olho para eles fitam-me fixamente e depois voltam a conversar, gesticulando com os seus dedinhos bicudos. Pensei em dar-lhes um nome, mas M. disse-me que era melhor não lhes dar qualquer atenção, porque muitas vezes abusam da confiança e tornam-se incomodativos, pedindo restos à mesa e entrando na casa de banho enquanto lá estamos. Eles abrem e fecham as portas, mas já vi um ou outro atravessando paredes e tectos. Para eles, a dimensão do mundo é algo muito diferente.

Quando acordei nessa noite, os dois demónios estavam a um canto do quarto, repetindo as estranhas palavras, em acesa discussão. Quando acendi a luz, olharam para mim. Pelos vistos, tinha-os surpreendido. Pareceram encolher-se numa espécie de timidez e entraram para dentro do armário, fechando a porta de correr atrás de si. E foi nesse momento que M. entrou.

Entrou correndo, fazendo um grande estrondo com a porta. Os seus olhos brilhavam, esgazeados, ela suava e tremia.

“O que se passou?”

“A minha irmã… A minha terceira irmã… A minha avó acordou-me, diz que ela está morta, diz que a viu morta dentro do poço, toda vestida de branco. Foi um demónio, anda por aqui um demónio muito mais poderoso que os outros. E matou a minha irmã!”

Levantei-me. Subitamente, pareceu-me que via tudo com uma claridade diferente. Tudo estava intensamente focado, conseguia ver os pequenos poros do nariz de M., que se dilatava uma e outra vez devido à intensa respiração. Perguntei-lhe o que fazer.

“Vamos buscar a pequenina e tomas conta dela. Depois vamos ao quarto da minha irmã morta. Vamos encontrar o demónio. Vamos eliminá-lo.”

Acedi. Era convidada naquela casa, teria de ajudar da melhor forma possível. Fomos buscar a irmã mais nova ao seu quarto, passando por corredores sem fim e jardins húmidos de orvalho, iluminadas apenas pela força lunar que se elevava no céu azul, escuro mas ao mesmo tempo limpo e meditativo. A pequenina não percebia o que se passava, repetia apenas “a minha irmã morta, a minha irmã morta”. Peguei-a no colo, era muito leve. Tinha as formas rechonchudas, mas era muito leve. Tão leve que me questionei se ela realmente existia.

Atravessámos uma grande cozinha de pedra e saímos para o quintal, na zona Oeste da casa. Uma pequena casa toda caiada de branco, com portas de folha de alumínio pintadas de verde, surgia lá ao fundo.

“Ali dorme a minha irmã morta”, disse M.

“A minha irmã morta, a minha irmã morta”, repetia a pequena.

Tinha de ajudar da melhor forma possível. Pousei a menina e empurrei a porta. Ao meu lado M. segurava uma lança bífida, um leve metal preto e baço, com todos os músculos tensos, pronta a atacar. A luz do céu entrava pela única janela, caindo directamente sobre uma cama, ocupada por alguém.

Levantou-se, essa pessoa. Era a irmã que devia estar morta. Trazia uma camisa de noite muito branca, em contraste com a sua pele cor de azeite e dos seus cabelos negros, negros e gordurosos como se também eles estivessem embebidos em azeite. Os olhos eram muito grandes, tão escuros que não se podia distinguir a pupila. Sorria para nós. A um canto do quarto, ao lado da porta, reparei nos demónios, nos meus demónios, que tremiam aterrorizados, tocando-se e ganindo na sua língua de consoantes.

“Tu, minha irmã… Tu não tinhas morrido? A avó encontrou-te morta! Tu não tinhas morrido?”

Ela levantou-se, como um espectro, avançando para nós de braços abertos. Sorria, o seu sorriso era belo, o seu sorriso era hipnotizante, o seu sorriso escorria gordura vegetal, ao andar ela deixava pegadas de azeite. Mostrou os dentes, quadrados, direitos, brancos.

“Mas, querida irmã. Eu já estou morta.”
A Irma Morta
Estava em casa do Qui. Tive este sonho de manhã e agora escrevi-o.

Isto não deixa por acentos, o nome mesmo é "A Irmã Morta"
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Quando entrei no cubo, tudo foi acidental. Passeava na floresta. Um passo em falso, estava no cubo. Suas arestas brilhantes, azuladas, tudo o resto escuridão. E a viagem. Depois, abriu-se uma porta. Um dos lados do cubo, o que estava à minha direita, desvaneceu-se. Do lado de lá, estava a floresta. Mas não era a mesma.

Quando saí, reparei que as folhas das árvores tinham formas diferentes. Não eram polígonos geométricos, mas também não eram iguais às folhas que eu conhecia. Mas não tinha outra opção se não caminhar. Atrás de mim, o cubo desaparecera.

Também eram diferentes os pássaros e os animais terrestres que via de quando em quando. Não eram estruturas biológicas alternativas, com mais patas ou menos olhos, mas também não eram iguais aos animais que eu conhecia. Mas foi só quando vi a primeira pessoa que compreendi que tinha viajado para outra dimensão, para outra corda do cilindro universal. Pois essa pessoa que eu vi tinha a cara de uma pessoa que eu conhecia. Mas era outra.

“Estás perdida?”, perguntou-me.

“Não sei onde estou.”

E levou-me com ela. No meio da floresta havia uma gruta, um abrigo, onde se reunia parte da humanidade. Tudo estava muito bem organizado, tecnologia superior, tudo muito branco e brilhante, plastificado. Todas as pessoas tinham caras que eu conhecia. Mas eram diferentes e não sabiam quem eu era. Deixaram-me sozinha e eu não sabia o que fazer. Então, ele apareceu.

Tinha a cara de um actor famoso na sua juventude. Mas eu soube desde logo que era ele o homem que eu amava. Quis saber quem eu era e o que fazia ali. Depois de lhe ter explicado sobre o cubo, levou-me a visitar o abrigo.

Todas as coisas estavam organizadas da melhor maneira possível, com tempo, com ordem, mas aquele era um campo de refugiados. Lá fora, à beira da floresta, estalava exuberante uma guerra à escala galáctica, com direito a todos os mortos que quiséssemos, todos queimados pela radiação de armas que nunca deveriam ter sido inventadas. Estas pessoas haviam conseguido fugir e tentavam organizar-se numa nova forma de paz mundial. Mas o espaço era tão pouco, os recursos tão parcos, que tudo se havia tornado em mais uma ditadura organizada, uma forma de neo-fascismo baseado em factores como a condição corporal e a capacidade de resolver problemas envolvendo números. Eu não tinha lugar ali. Talvez me pudesse integrar como o elo mais fraco da cadeia. Mas rapidamente seria sacrificada para dar lugar a uma nova geração, mais forte, mais inteligente. Tinha de voltar para casa.

“Ajudas-me a voltar para casa? Ajudas-me a encontrar o cubo?”

Estávamos nas profundezas da gruta, à beira de um lago subterrâneo, todo iluminado por meios artificiais. Eu estava de joelhos, sentindo os pequenos seixos de encontro aos meus joelhos nus. Era a única pessoa vestida de forma diferente, pois todos traziam uniformes brancos, em tudo semelhantes a uma simplificação prática do vulgar fato de astronauta. Pelo que havia percebido, a qualquer momento poderiam ter de partir para o hiperespaço, em busca de novo planeta habitável, caso aquele implodisse por força da guerra que se lutava para além da floresta. Se eu ficasse, também teria de usar um desses uniformes. Eu não queria.

“Ajudas-me a encontrar o cubo?”

Ele ajoelhou-se ao meu lado e pegou-me nas mãos. Sentia os seus olhos fixos em mim e ganhei coragem para os olhar. Eu conhecia-os, conhecia-os melhor que nunca. Noutro lugar qualquer eu já havia conhecido aquele homem e tinha-o amado, um amor vívido e palpável. Todo ele enchia o meu coração de sentimentos e o meu estômago de borboletas. Ele deve tê-lo lido no meu olhar. Respondeu.

“Se tu fores, nunca mais nos poderemos encontrar.”

“Mas eu posso encontrar-te. Posso encontrar-te na minha dimensão. E tu poderás encontrar-me aqui.”

“Provavelmente já estás morta. Não vás. Podemos ser felizes aqui.”

“Ajuda-me a encontrar o cubo. Diz-me como te poderei encontrar do outro lado!”

Ele baixou os olhos. Parecia estar a pensar em algo muito complexo e demasiado forte para se dizer sem cuidado. Não insisti, voltei a olhar o lago. Era água morta, demasiado mineral para se poder beber. Nada poderia viver naquele lago. Eu não poderia viver num lugar onde existisse um lago assim. Precisava da minha floresta e da minha montanha, precisava de um lugar onde pudesse correr livre e sentir a relva molhada debaixo dos pés. E ele também o sabia.

“No teu mundo há água?”, perguntou.

“Há água, mas cada vez há menos que seja boa para beber.”

Ele parecia ver o futuro através das minhas palavras.

“Então vai haver uma guerra. Uma guerra como a nossa, uma guerra em tudo igual a esta. Tudo começa muito devagar. Primeiro os países perdem a moeda e não há empregos nem maneira de comprar coisas. Depois a água começa a faltar. Então os governos reúnem-se para tentar tirá-la aos rios que passam noutros continentes. Mas os países por onde passam esses rios não se podem dar ao luxo de as partilhar. Então começa a guerra. E todos os homens são chamados. Depois as mulheres.”

“E tu? O que te vai acontecer?”

Olha para mim fixamente.

“Eu não vou sobreviver.”

Ainda assim tenho de voltar para o encontrar. Talvez possamos ser felizes antes de a guerra começar. E se a guerra começar, eu irei com ele e poderemos morrer juntos.

Concorda, mas não me pode levar ao cubo. Existe um cubo no topo da montanha. Vai pedir a um amigo e à sua mãe que me levem lá. Eu conheço-os. Têm a cara de pessoas que conheço. E são mesmo as pessoas que conheço! Pela primeira vez, sinto-me em casa.

Lá longe ouve-se o tiroteio, a guerra. Podem vir atrás de nós. Corremos pelos trilhos da montanha, tão estreitos, tão pedregosos, cada vez mais longe, cada vez mais alto. Se tropeçar e cair, acabarei esmagada nos ramos de uma árvore. Escorrego muitas vezes, mas estes amigos ajudam-me a levantar, sacudindo a gravilha dos meus calções pretos. Escorrego muitas vezes e quanto mais vezes caio mais longe parece estar o topo da montanha, mais longe parece estar o cubo. Lá longe ouve-se o tiroteio e quanto mais vezes caio mais perto eles parecem estar. O caminho parece-me infinito. Nunca chegarei ao cubo. Nunca voltarei para casa. Começo a correr. Os meus companheiros ficam para trás. Nunca mais voltarei a casa. Grito, grito muito, grito todas as coisas, todos os palavrões, quero desistir.

Quando entrei no cubo, tudo foi acidental.
Se te voltar a encontrar
Quando sonhei isto, ele tinha a cara do Harrison Ford, mas mais novo.
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Lembram-se aqui há tempos de eu dizer que queria reunir todos os meus contos, tirá-los daqui, metê-los num pdf e mandá-los a alguém que mos publicasse sob a forma de livro?

O dia foi hoje.

Adeus a todas as histórias com temas surrealistas e de sonhos, pois é esse o tema do primeiro volume altamente artístico que pagarei a alguém para editar e publicar no papel. Será um livro digno de um prémio para anormaléticos.

Só preciso de um título! Sugestões? :)

(Encontro-me fazendo isto na faculdade de letras, que até é um sítio bem pimpão)

Edit: Ah! Dois poemas meus foram publicados numa antologia poética da editora Universus, chamada "Universus da Poesia". Acho que está no Wook, mas não ganho nada com isso portanto podem ler um dos poemas aqui, é o "Dansa" :3
  • Mood: Approval
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Lembram-se aqui há tempos de eu dizer que queria reunir todos os meus contos, tirá-los daqui, metê-los num pdf e mandá-los a alguém que mos publicasse sob a forma de livro?

O dia foi hoje.

Adeus a todas as histórias com temas surrealistas e de sonhos, pois é esse o tema do primeiro volume altamente artístico que pagarei a alguém para editar e publicar no papel. Será um livro digno de um prémio para anormaléticos.

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(Encontro-me fazendo isto na faculdade de letras, que até é um sítio bem pimpão)

Edit: Ah! Dois poemas meus foram publicados numa antologia poética da editora Universus, chamada "Universus da Poesia". Acho que está no Wook, mas não ganho nada com isso portanto podem ler um dos poemas aqui, é o "Dansa" :3
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:icondarkc3po:
darkc3po Featured By Owner Sep 26, 2014
^_^:hug:how are you,i want to wish you very early happy birthday:cake:have a great weekend my buddy.:hug:^_^
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LadyLouve Featured By Owner Sep 27, 2014  Hobbyist Writer
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darkc3po Featured By Owner Sep 28, 2014
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:iconladylouve:
LadyLouve Featured By Owner Sep 28, 2014  Hobbyist Writer
The weather was fine, thank goodness :)
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(1 Reply)
:iconthejoanapadj:
TheJoanaPADJ Featured By Owner Jun 26, 2014
Olá e bem-vinda ao :iconmundusridiculus: La la la la
Ficamos felizes por te ter como membro do grupo e contamos em ver vários dos teus trabalhos nas nossas galerias.
Por favor, não te esqueças de ler as regras e, se tiveres alguma dúvida ou até mesmo sugestões, envia-nos uma nota no grupo! Meow :3

De resto, esperamos que te divirtas por aqui! Glomp!
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:iconchibbi-chanime:
chibbi-chanime Featured By Owner Dec 25, 2013  Hobbyist General Artist
:D Hosu!
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:iconladylouve:
LadyLouve Featured By Owner Dec 26, 2013  Hobbyist Writer
OOO!

:D
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:iconminihumanoid:
minihumanoid Featured By Owner Nov 28, 2013  Student General Artist
obrigada pelo fav :D :D :D :D
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:iconjacac:
JACAC Featured By Owner Nov 13, 2013
o l á . :wave:
o b r i g a d o . p e l o . f a v
e s p e r o . q u e . a s . m i n h a s . o u t r a s . f o t o s . s e j a m . i g u a l m e n t e . i n t e r e s s a n t e s ...
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:icondarkc3po:
darkc3po Featured By Owner Sep 26, 2013
^_^:hug:how are you,i want to wish you a very early happy birthday:cake:have a great day my buddy.:hug:^_^
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