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Olá meus queridos bacalhaus demolhados ultracongelados <3

Após tantos anos a usar o deviantArt cheguei à conclusão de que:

1. Isto não é uma boa plataforma para literatura
2. Isto não é uma boa plataforma para a língua portuguesa

Assim, estou a mudar de residência. Poderão encontrar as minhas histórias (incluindo já um conto inédito) em:

www.bentiviurbano.blogspot.pt

Se quiserem ver cosplay, agora tenho uma página em:

www.facebook.com/ladyxzeus

De resto, continuarei a vir aqui para ver artes bonitas e talvez por uma história ou outra.

Entretanto, busco uma editora simpática para a minha colectânea de contos e vou começar amanhã um curso intensivo de escrita criativa :)

Espero que todos se encontrem bem. Eu, por cá, estou ligeiramente bezana.
  • Listening to: Nirvana
  • Reading: Manazuru
  • Watching: Galaxy Express 999
  • Eating: Empadão
  • Drinking: Jola
Aqui me encontro prisioneira. Sei que estou inocente, o meu único crime foi não saber o caminho. Perdi-me nos corredores do castelo, procurando o salão de baile, corri no meu vestido branco de cetim, batendo portas umas atrás das outras, descendo escadas, rectas, espiraladas, todo o tipo de escadas. Vim parar a esta sala e agora sou prisioneira.

O castelo está na colina sobre a praia e muitos dos seus níveis estão submersos na água do mar. Sei disto porque esta sala está rodeada de pequenos corredores fechados por grossos vidros, janelas que me mostram que estão cheios de água. A sala é vermelha, paredes vermelhas, tecto vermelho, tapeçarias vermelhas com grandes e complexos ornamentos dourados que brilham, com forma de pássaros, de insectos, todo um ecossistema prisioneiro de grossos tecidos macios. Não há uma mesa, nem uma cadeira, não há sítio nenhum onde me possa sentar nesta sala circular. Olho pelos vidros, têm água do outro lado, mesmo que lhes bata, mesmo que os parta, não tenho saída. Aguardo. Sinto que deveria ter algum tipo de desespero em mim, mas estou extremamente calma. Oiço vozes algures, vozes de fantasmas. Às vezes posso vê-los, os fantasmas de todas as pessoas que ficaram presas nesta sala enquanto procuravam pelo salão de baile. Estão a fazer uma festa. Não tenho onde me encostar, sinto os joelhos a ceder e um sono profundo invade-me. Aqui morrerei, mas não me sinto infeliz.

Subitamente vejo uma figura do outro lado de um dos vidros. Os vidros têm uma forma perfeitamente quadrilátera e aquele enquadra a pessoa. É um homem vestido com um longo casaco de veludo vermelho, com decorações douradas iguais às do quarto. Faz-me um sinal, mas eu estou quase a adormecer, levanto os olhos para ele mas mal o consigo distinguir, em breve serei também um fantasma. Mas ele estende o braço na minha direcção, apontando com o dedo indicador o vidro que nos separa. Do outro lado a água agita-se numa corrente de bolhas e gases. A água está cada vez mais agitada mas eu sinto-me a cair, os meus olhos a fecharem, só tenho tempo de ver o que aí vem antes de cair. São hipopótamos, três hipopótamos muito pequenos, infantis, que nadam a toda a velocidade e batem contra o vidro. Parte-se, a água jorra, a água inunda a sala, sinto-me a cair mas o homem agarra-me.

As suas mãos são grandes e cheias de veias.

Ele leva-me pela mão, descendo escadarias cheias de olhos misteriosos, rubros e curiosos. Oiço os fantasmas, falam numa língua antiga, uma língua que está para além da minha compreensão. Caio muitas vezes, mas o homem levanta-me. Lá ao fundo uma porta.

Ar fresco da noite. Estamos na praia.

Ele larga-me e eu avanço lentamente para o mar. Sinto que no mar poderei estar em paz, que não terei mais de ir ao salão de baile, que ninguém se importará com a bainha rasgada do meu vestido nem com as nódoas de terra no corpete. Estou quase a chegar, mas ele está cada vez mais longe. Viro-me para trás para acenar ao homem que me salvou. Um último adeus antes de me libertar. Mas ele está rodeado de pessoas, um exército que se reuniu à sua volta. Para se despedir de mim? Para me impedir de ir ter com o mar? Um homem alto de bigode retorcido aproxima-se. Tem uma espada rectangular na mão, uma espada muito afiada que brande de um lado para o outro. Protejo a cara com as mãos e a espada corta-me, finos cortes de papel que nem sequer sangram, são apenas dolorosos como uma delicada dormência que me impede de estender os dedos.

Protegendo-me, andando para trás, pedindo clemência, encontro a linha da água. O homem da espada para e eu avanço cada vez mais. Tenho água pelos joelhos, tenho água pela cintura, tenho água pelo peito. É uma água muito quente, como uma sopa cheia de sal, quase sem ondas. Penetro no mar e estou no meio de grandes algas, muitas algas húmidas e verdes que se espalham à minha volta fazendo formas de enormes animais. Uma das formas aproxima-se. É um cavalo, como se feito de ervas enroladas umas nas outras. O seu olho vegetal olha-me.

Lá em cima, as nuvens são o cobertor da lua.
Por vezes sinto que as pessoas têm medo de mim. Quando vou a passar na rua e momentos do género. Talvez seja só impressão minha. Mas este medo generalizado das pessoas em relação à minha pessoa tem vindo a crescer. Às vezes reparo nas velhotas que passam para o outro lado na rua. Ou nos miúdos que abrem muito os olhos quando vêem as tattoos. Mas talvez seja só impressão minha. Ao início, quando a minha transformação começou nesses idos anos adolescentes, gostava disso. Gostava de causar medo às pessoas. Eu era do mal, eu era do metal, eu era do hardcore. Se uma mãe de família cheia de sacos se apressasse a passar por mim, eu ria-me. Nem me ria por dentro. Apontava para ela e gargalhava, como se possuído por um demónio. Era assim nessa altura... Sentia-me possuído e achava isso a melhor coisa do mundo. Agora... Agora gostava de ajudar a senhora a carregar os sacos.

Essas coisas, regras de boa educação, saber conviver em sociedade, foram-me ensinadas pelo meu pai. Nunca o achei um grande homem. Chegou a haver uma fase em que o odiava. Mas ele sempre me ensinou estas coisas. Não tinha uma mãe para mas poder ensinar. Ela morreu quando eu nasci. Alimentei durante anos o sentimento de que a culpa tinha sido minha. Depois transferi a culpa para o meu pai. Não havia razão para isso, mas ele passou a ser o culpado de todos os meus problemas. Talvez sempre tenha tido jeito para me fazer de vítima... Enfim, de todos os modos ele ensinou-me a ser educado. A questão é que eu recusava esses ensinamentos.

Não sei precisar quando começou a minha transformação, de miúdo normal para irmão da seita dos concertos de metal. Mas posso dizer que fui muito influenciado pelos Black Sabbath. Estava um disco em promoção na Valentim de Carvalho e o nome assustou-me. A capa assustou-me. Mesmo assim, senti-me fatalmente atraído para aquele CD. Estava com o meu pai, implorei-lhe que mo comprasse. Ele nem sequer discutiu muito, não falou sobre o preço, não falou sobre a banda em si. Agora que olho para trás, tenho a certeza de que ele sabia o que é que era. Mas na altura, depois de ouvir o disco, senti-me como que completamente afastado do meu pai, como se tivesse aterrado num novíssimo planeta feito de energia maléfica. Gostei dela. Pela primeira vez senti-me em casa. Não é como se a minha casa, onde vivia na altura e onde me mantenho, fosse um mau lugar. Mas estava lá o meu pai. Eu não queria estar com ele. Queria estar onde os Black Sabbath estivessem. E esse lugar era a música.

Rapidamente o meu quarto se transformou num antro de terror. Pintei as paredes de cinzento e, à medida que ia descobrindo mais música, comecei a enchê-las com posters variados, todos em tons negros e brancos, todos com as bandas que me aliviavam a dor de ter de partilhar a mesa da cozinha com o meu pai. Não o odiava, não pensemos assim. Mas ele representava tudo aquilo que eu não queria ser. Representava o facto de eu não ter mãe. Representava as boas notas na escola e não cuspir para o chão. Eu queria ser livre e música libertava-me.

Foi através dela que fiz os meus amigos, os meus melhores amigos. Éramos crianças, mas ainda continuamos juntos apesar de todos os problemas. Comecei a ir a concertos e a minha maior liberdade era espalhar algum caos numa moshada. Conheci muitas pessoas, todas com nomes agradáveis. Morte, Azar, Satã, Black Mike, coisas assim. Conheci miúdas. Eram agressivas, eram como eu. Tinham muito sobre que reclamar. Apaixonei-me, desapaixonei-me, coisas parvas de miúdos. Mas tinha encontrado a minha identidade. Um nome para ela? Não sei. Gosto de metal. Gosto de preto. Gosto de tatuagens e piercings. É o meu conforto. Soubessem vocês a liberdade que sinto a cada pontada da agulha, quando faço uma nova tattoo. É dor, sim. Mas a minha mente viajou. Para aquele lugar onde fui da primeira vez que ouvi os Black Sabbath.

Mas há um detalhe. O meu pai continuava presente. Ao início ele até se esforço para ir a um ou dois concertos comigo, mas perante e humilhação que eu sentia com a sua presença acabou por desistir. Eu não o odiava. Mas sentia, como hei-de explicar... Uma espécie de... Nojo? Talvez não seja essa a palavra certa... Mas éramos tão diferentes, ele tão correcto e eu procurando a liberdade total, ele tão democrático e eu vivendo uma completa anarquia interior... Que eu não suportava estar no mesmo espaço que ele. O meu pai sabia disso. Nunca fazia questão de estar presente. Quando eu gritei com ele e lhe atirei com a porta na cara porque ele queria ir a uma festa da escola, ele não foi. Quando eu lhe mostrei um pirete porque ele me queria dar boleia para um concerto no Seixal, ele não foi. Eu tinha os meus amigos, para que precisaria eu de um pai?

Desisti da ideia da faculdade quando vi a minha primeira nota de matemática. Portanto terminei a escola e comecei a trabalhar como empilhador num supermercado da zona. Ao início senti que tudo era perfeito. Tinha dinheiro para comprar mais discos, para ir a mais concertos, para comprar mais roupas. Era um trabalho primáriamente nocturno e eu gostava da noite. Mas comecei a sentir-me cansado. Comecei a recusar convites para sair, comecei a dormir mais. Já nem me sentia com vontade de discutir com o meu pai. Foi então que, uma noite ele sugeriu dar uma volta, para desanuviar. Eu estava tão exausto e desmotivado que aceitei, apesar de ter dado bastantes voltas à cabeça sobre se seria certo sair com a representação d’O Homem. E foi nesse dia que ele me levou à pesca.

Eu nunca tinha pescado e achava aquilo uma tolice, uma estupidez pegada. Qual era a piada de estar em frente ao rio com uma cana à espera que um peixe aparecesse? O rio era feito para se olhar enquanto se fuma um bongo ou para mijar nele, sei lá... Mas nesse dia foi diferente. Para começar, estava um frio terrível. Eu não tinha levado um casaco forte, mas o meu pai tinha um extra na mala do carro. Sentámo-nos, ele preparou as linhas, os anzóis, os iscos, todas essas coisas. Depois ficámos a olhar para o rio. Era um rio negro, pontilhado por fachos luminosos, reflexos da lua que ondeavam de uma forma mística, incompreensível para mim. E de novo veio aquele sentimento, aquele primeiro sentimento: estava em casa. A imagem à minha frente era calma, demasiado calma, ao mesmo tempo infantil e tenebrosa, como se alguma força brutal pudesse descender sobre nós a qualquer momento. Então, o peixe picou. De repente, vi o meu pai de forma diferente, ele não era mais um homem, uma representação d’O Homem, era uma força da natureza lutando contra algo imprevisível, incontrolável. Algo extraordinário estava a acontecer perante os meus olhos e eu nada pude fazer ou dizer. Apenas olhei, observei tudo. Observei o peixe preso à linha, o meu pai a pousá-lo no chão, a tirar o anzol e a pegar nele. Estava a libertar o peixe. Eu não percebi porquê à primeira, mas senti uma admiração perante tal poder, a luta, o separar a vida da morte, que mudou completamente a minha visão das coisas.

Isto é, eu continuava a ser igual a mim próprio, a mudar para alargadores cada vez maiores e tudo isso. No dia a dia continuava a gritar com o meu pai e a mandá-lo à merda quando queimava as torradas. Mas passei a ir à pesca com ele. E o meu pai ensinou-me a pescar e pude entrar nesse universo onde tudo é calmo, onde há água, estrelas e lua, onde os peixes vivem e onde a noite é negra.

Há coisa de uma semana, tudo mudou. O meu pai morreu. Foi uma coisa repentina, ninguém estava à espera. Ele estava no seu escritório e simplesmente caiu para o lado e morreu. Quando recebi a notícia não tive reacção. Não chorei. Pensava que fosse sentir alívio, mas nada disso. Apenas uma imensa e inexorável tristeza, uma tristeza descontrolada. O meu primeiro pensamento foi o que vestiria no funeral. Todas as minhas roupas são pretas, todas elas seriam apropriadas. Mas eu sabia que não me iria sentir bem, que não me iria sentir real. O melhor que consegui foi substituir a t-shirt por uma camisa.

Quando voltei para casa, com a urna cheia de cinzas nas mãos, pensei longamente no que fazer a seguir. Liguei a música, nenhuma delas era suficiente agressiva para conter os meus sentimentos. Então pensei em ir à pesca. Com as cinzas. Uma última pescaria.

Agarrei em tudo o que precisava, peguei no carro e pus-me a caminho. E lá ia eu, concentrado, quase contente, com a cana de pesca numa mão e a lancheira com os iscos vivos e as cinzas do meu pai na outra. Infelizmente aconteceu algo que não estava à espera. Os meus amigos. Vinham a descer a rua que cruzava com a que estava, todos com uma litra em cada mão.

- Então man que é isso? Vais à pesca?

Eu não sabia o que responder. Então disse “ya”, porque era verdade.

Eles decidiram juntar-se a mim, falando ruidosamente uns com os outros, comentando como era improvável eu ir à pesca, como era ujma coisa que nada tinha a ver comigo e todas essas coisas.  Sentia-me terrível por estar a partilhar aquele lugar secreto, mas eles são os meus amigos, não os podia mandar embora. Lá chegados preparei tudo para pescar, sem me preocupar em realmente apanhar um peixe ou não. Os meus amigos não paravam de fazer barulho, decidiram por música a tocar com o telemóvel e umas colunas portáteis. Interrompi o que estava a fazer. Com toda a calma.

- Pessoal, para o peixe vir têm de fazer pouco barulho.

Eles começaram a rir-se, mas devo ter olhado para eles de tal maneira que os seus sorrisos esmoreceram e sentaram-se todos à minha volta. Muito baixinho começaram a perguntar-me o que se passava. Comecei, então, a explicar como se pescava. Expliquei todas as técnicas que sabiam e, por alguma razão estranha, pelo meio de muita gíria e palavrões, eles pareciam estar interessados.

Um deles reparou na urna dentro da lancheira. Perguntou o que era.

- É o meu pai. Também está à pesca com a gente.

Isto foi uma frase tão fora, tão fora do contexto real, que todos ficaram altamente excitados. Para eles, que nunca tinham conhecido o meu pai, não significava mais nada para além de uma imagem altamente maléfica e muito gótica. De certa forma, era a maneira deles mostrarem respeito. Uma maneira muito própria, mas sincera.

E todos estavam concentrados nisso quando um peixe mordeu o isco. Puxei-o. Mas era algo de brutal. Era possivelmente o maior peixe que eu tinha apanhado na vida. Tinha uma força imensa, uma força que me puxava para o fundo do rio, o lugar certo para se estar, um lugar de paz, sem ruído, sem luz. Eu sabia que os meus amigos estavam todos aos gritos, tentando motivar-me, mas eu não ouvia nada, só via a luz da lua e a linha a mexer-se a toda a velocidade, a ir-se embora. Mas consegui puxá-lo. E era realmente o maior peixe que eu já tinha visto. Tentei fazer como o meu pai sempre fez. Tirar o anzol. Libertá-lo. Mas os meus dedos estavam dormentes, não tinha coordenação, os meus amigos saltavam, empurravam-se, sentiam-se como no centro de um mosh, mas incapacitado, uma pessoa sem braços no meio de uma luta com neonazis, o peixe debatia-se, eu não conseguia fazer nada, eu não conseguia, eu não consegui. O peixe morreu asfixiado.

Senti um abraço por trás de mim.

- Parabéns man! Queres que te tire uma foto?

Eu não sabia. Então disse “não, man, tá-se bem”, porque era verdade.
Os meus amigos felicitavam-se e felicitavam-me, como se todos tivessem contribuído para a morte da infeliz criatura. Sem tentar ser muito solene, peguei na urna e despejei-a para o rio. Tinha a vaga esperança de que pudesse encontrar o meu pai de novo, sob a forma de um peixe. Talvez...

No dia seguinte, convidei todo o pessoal para uma almoçarada lá em casa. Peixe assado no forno, com batatas a murro e vegetais salteados. Procurei a receita na net. Estava fixe. Uma amiga reparou no gira discos do meu pai.

- Uau, estão aqui montes de 33 rotações, que fixe! Mete lá um para a gente ouvir!

Suspirei. Não devia ser música a combinar com o nosso grupo. Fui escolher um disco, talvez houvesse uma música clássica assim mais agressiva ou isso. Percorri-os. Led Zeppelin, Deep Purple, Judas Priest, Alice Cooper, estavam lá todos. E no meio deles estava aquele disco. Aquele primeiro disco dos Black Sabbath que ele me tinha oferecido.

Afinal não o tinha obrigado a dar-me o disco.

Foi só aí que chorei.
A Grande Pescaria
Uma vez estava em Cacilhas e vi um gótico com uma cana de pesca.

História escrita nas Barrocas
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Anoitece e os grilos comunicam por pequenos estalidos. Ainda estou escondida. Os estábulos são quentes, tanto calor vindo de corpos equinos, suas palhas, suas fezes. O cheiro é intenso, mas não é mau. Cavalos não cheiram mal, cheiram a feno, é a isso que cheira aqui. Mas não me posso deixar sentir confortável, não posso adormecer no meio dos fardos de palha: ele anda por aí, ele ainda anda por aí.

O assassino já matou seis estudantes de equitação, dentro deste estábulo, cada um junto a um cavalo. Os cavalos estão assustados, todos estamos assustados, mas tentamos manter a calma. Eu tento manter a calma. A próxima sou eu, sei disso, sinto isso. E ele anda por aí, ninguém sabe como ele é, a única coisa que sabemos é que a sua arma é uma faca, uma faca muito grande e muito afiada com que ele degola as suas vítimas. Não sei como poderei escapar. Preciso de sair do meu esconderijo. Os cavalos sabem onde eu estou. Ele sabe onde eu estou. Levanto-me subitamente, vou sair daqui como se nada se estivesse a passar, fazendo o máximo de barulho possível, vou chamar a atenção e o melhor que pode acontecer é que alguém me venha ajudar. Nervosamente, caminho, quase corro, as solas das botas de montar calcando pedacinhos de palha no chão de cimento. A saída. Vou conseguir.

Mas tenho de parar. À minha frente está aquele rapaz, uma pessoa que já tinha perdido nas memórias do passado. É muito baixo e entroncado, impede-me a passagem pela porta.

“Então, por aqui? Há quanto tempo não nos víamos!”

“Pois é, a última vez que ouvi falar de vocês foi quando a filha do professor perdeu o cão!”

Sinto-me salva, uma conversa normal, uma conversa normal e depois poderei sair do estábulo e fugir para a floresta. Sorrio, desvio o olhar. Então vejo a sua mão, escondida atrás das costas. Tem uma faca. Uma faca muito grande e muito afiada. É ele. É ele o assassino.

Empurro-o, com a surpresa ele não tem reacção, consigo escapar-me, fujo, correndo, correndo, as botas não me dão muita mobilidade nos tornozelos, mas é o melhor que consigo, fujo de olhos fechados, sei que a floresta está mesmo ali, na floresta estarei a salvo, estarei sim, estarei.

Quando abro os olhos, descubro que tomei o caminho errado. Estou na estação de metro. O chão é de mosaicos brancos, muito limpos, muito brilhantes, iluminados por fortes luzes que os fazem cintilar. As minhas botas fazem um ruído seco quando piso este chão.

Chega o metro. Duas carruagens unidas, amarelas e aerodinâmicas. Não há muito mais opções para além de entrar. Lá dentro, estão os meus colegas da escola. Já não os via há anos. Estão exactamente iguais, conversando sentados, um ou outro fazendo macacadas com as traves onde deviam segurar-se para se equilibrarem. Fico em pé, eles agem como se eu sempre estivesse ali. Saio atrás deles. Por coincidência é a estação onde eu deveria sair para ir a uma entrevista de trabalho. Por coincidência, eles também vão ao mesmo lugar.

É uma clínica pequena, aparenta ter apenas uma sala de espera e uma outra sala, separadas por uma cortina branca. Todos se sentam no chão menos eu. Tenho de me manter apresentável, para me contratarem. Duas raparigas, as melhores amigas, usam roupas estranhas. Têm um fato de corpo inteiro às listras amarelas e pretas, como aqueles antigos fatos de arlequim que se compravam em lojas de carnaval. Têm a cabeça coberta por um capuz, que também lhes cobre a face. Vêem e respiram por uma pequena rede, mas não conseguimos ver a cara delas. Uma das melhores amigas tira o capuz, parece jovial e feliz como sempre foi. Mas a outra pega na sua irmã pela mão e coloca-se num ponto mais elevado. Aí, inicia um discurso de ódio. Diz todas as coisas que sempre detestou na sua irmã mais velha, todas as coisas que sempre a magoaram, até mesmo coisas que sabemos que não são verdades. A irmã chora, pergunta porquê, porque é que ela lhe está a dizer todas estas coisas.

“Tenho de aproveitar que tenho o fato posto para dizer todas as verdades!”

A outra melhor amiga coloca o capuz e começa a dirigir-se para mim. Não! Não! Deixa-me! Eu não te quero ouvir! Afasto-me para perto da cortina branca, tenho de impedir que ela se aproxime, mas tenho de manter a compostura, a entrevista de trabalho é decisiva para o meu futuro.

Então aparecem dois estagiários, vestidos de vermelho, com uma maca. Estacionam-na à minha frente, bloqueando as rodas com os pés. Levantam o lenço. Por baixo dele está uma criança recém-nascida. É castanha, parece enlameada, ensanguentada, um pavor. O seu cordão umbilical está seco e retorcido e prolonga-se longamente. Está preso à testa de uma criatura que segue atrás da maca, um manequim de montra sem braços, com a cabeça encaixada sobre um pescoço demasiado fino e demasiado longo. Ela não tem roupas e tem ferimentos diversos, mas o seu corpo não é de carne, não é humano, não passa de um boneco. Grito, tenho medo, tenho tanto medo, deixem-me, deixam-me, não me digam as verdades, não digam!

Puxo o cordão umbilical, tenho de destruir estes bonecos. Mas quando o faço, o ventre da criança castanha desfaz-se em sangue e pus. Os meus gritos são abafados pelos risos dos outros. Afinal, não eram bonecos.
Cordao Umbilical
"Cordão Umbilical"

Tenho estado muito ocupada com trabalho. Tenho tido muitos pesadelos.
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Ai que enviei o manuscrito!

Agora é aguardar a resposta agressiva. :3
  • Listening to: Animal Collective
  • Reading: Ulysses, by James Joyce
  • Watching: Last Exile
  • Eating: Um guta
  • Drinking: Auga

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    awaicu
    Donated Dec 26, 2010, 6:26:20 PM
    1
Olá meus queridos bacalhaus demolhados ultracongelados <3

Após tantos anos a usar o deviantArt cheguei à conclusão de que:

1. Isto não é uma boa plataforma para literatura
2. Isto não é uma boa plataforma para a língua portuguesa

Assim, estou a mudar de residência. Poderão encontrar as minhas histórias (incluindo já um conto inédito) em:

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Espero que todos se encontrem bem. Eu, por cá, estou ligeiramente bezana.
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:icondarkc3po:
darkc3po Featured By Owner Sep 26, 2014
^_^:hug:how are you,i want to wish you very early happy birthday:cake:have a great weekend my buddy.:hug:^_^
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:iconladylouve:
LadyLouve Featured By Owner Sep 27, 2014  Hobbyist Writer
=D
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:icondarkc3po:
darkc3po Featured By Owner Sep 28, 2014
^_^:hug:how are you,how is the weather,have a great weekend my buddy.:hug:^_^
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:iconladylouve:
LadyLouve Featured By Owner Sep 28, 2014  Hobbyist Writer
The weather was fine, thank goodness :)
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(1 Reply)
:iconthejoanapadj:
TheJoanaPADJ Featured By Owner Jun 26, 2014  Hobbyist
Olá e bem-vinda ao :iconmundusridiculus: La la la la
Ficamos felizes por te ter como membro do grupo e contamos em ver vários dos teus trabalhos nas nossas galerias.
Por favor, não te esqueças de ler as regras e, se tiveres alguma dúvida ou até mesmo sugestões, envia-nos uma nota no grupo! Meow :3

De resto, esperamos que te divirtas por aqui! Glomp!
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:iconchibbi-chanime:
chibbi-chanime Featured By Owner Dec 25, 2013  Hobbyist General Artist
:D Hosu!
Reply
:iconladylouve:
LadyLouve Featured By Owner Dec 26, 2013  Hobbyist Writer
OOO!

:D
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:iconminihumanoid:
minihumanoid Featured By Owner Nov 28, 2013  Student General Artist
obrigada pelo fav :D :D :D :D
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:iconjacac:
JACAC Featured By Owner Nov 13, 2013
o l á . :wave:
o b r i g a d o . p e l o . f a v
e s p e r o . q u e . a s . m i n h a s . o u t r a s . f o t o s . s e j a m . i g u a l m e n t e . i n t e r e s s a n t e s ...
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:icondarkc3po:
darkc3po Featured By Owner Sep 26, 2013
^_^:hug:how are you,i want to wish you a very early happy birthday:cake:have a great day my buddy.:hug:^_^
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